domingo, 10 de fevereiro de 2008

Esperteza saloia

Um dia, nos bons tempos de D.Miguel, certo saloio astuto foi condenado a acabar na forca por crime de morte de homem. Quando já estava no oratório, com o baraço ao pescoço, pediu que o conduzissem à presença do rei, porque queria, antes de morrer, revelar um facto importante a sua magestade. Fizeram a vontade ao saloio, atiraram-lhe um farragoulo de burel às costas, e levaram-no a Queluz.
-Que é que tu queres? - perguntou-lhe D.Miguel.
-Ah, meu senhor! Queria pedir a vossa magestade que me concedesse mais um ano de vida. Não é que tenha medo da morte, meu senhor, porque a gente não morre senão uma vez. Mas, com o perdão de vossa magestade, eu estava ensinando o meu burro a ler, um burro de grande entendimento que lá tenho em Loures, e custa-me deixar este mundo sem ver o animal ensinado ...
-Quê? Então o burro lê?
-Já conhece as letras, meu senhor.
O rei achou-lhe graça, chamou o conde de Basto, concedeu ao homem um ano de vida que ele lhe pedia, e prometeu-lhe o perdão da forca, se ele lhe trouxesse o burro em estado de soletrar a Constituição de 1820.
-E agora, como é que tu te arranjas? - perguntava à saída o ministro, cheio de grã-cruzes, ao saloio, que pulava de contente.
-Ora, senhor! Num ano, ou morre o rei, ou morre o burro, ou morro eu.

Júlio Dantas

Júlio Dantas

1 comentário:

mara disse...

Não era tão saloio assim.