terça-feira, 21 de agosto de 2012

Venho de longe


Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonia.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.


       Autor desconhecido

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A minha casa de Benguela


                ...   e tudo o vento levou!

sábado, 4 de agosto de 2012

Quero

Quero tudo novo de novo. Quero não sentir medo. Quero me entregar mais, me jogar mais, amar mais.
Viajar até cansar. Quero sair pelo mundo. Quero fins de semana de praia. Aproveitar os amigos e abraçá-los mais. Quero ver mais filmes e comer mais pipoca, ler mais. Sair mais. Quero um trabalho novo. Quero não me atrasar tanto, nem me preocupar tanto. Quero morar sozinha, quero ter momentos de paz. Quero dançar mais. Comer mais brigadeiro de panela, acordar mais cedo e economizar mais. Sorrir mais, chorar menos e ajudar mais. Pensar mais e pensar menos. Andar mais de bicicleta. Ir mais vezes ao parque. Quero ser feliz, quero sossego, quero outra tatuagem. Quero me olhar mais. Cortar mais os cabelos. Tomar mais sol e mais banho de chuva. Preciso me concentrar mais, delirar mais.
Não quero esperar mais, quero fazer mais, suar mais, cantar mais e mais. Quero conhecer mais pessoas. Quero olhar para frente e só o necessário para trás. Quero olhar nos olhos do que fez sofrer e sorrir e abraçar, sem mágoa. Quero pedir menos desculpas, sentir menos culpa. Quero mais chão, pouco vão e mais bolinhas de sabão. Quero aceitar menos, indagar mais, ousar mais. Experimentar mais. Quero menos “mas”. Quero não sentir tanta saudade. Quero mais e tudo o mais.
“E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha".

                      Fernando Pessoa

Aquarela do Brasil

Brasil
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingá
Ô Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil! Brasil!
Prá mim… prá mim…
Ô, abre a cortina do passado
Tira a Mãe Preta do serrado
Bota o Rei Congo no congado
Brasil! Brasil!
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver a “Sá Dona” caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil! Brasil!
Prá mim… prá mim…
Brasil
terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
Ô Brasil, verde que dá
Para o mundo se admirá
Ô Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil! Brasil!
Prá mim… prá mim…
Ô, esse coqueiro que dá côco
Oi, onde amarro a minha rêde
Nas noites claras de luar
Brasil! Brasil!
Ah, ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincá
Ah, este Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil! Brasil!
Prá mim… prá mim…

           Ary Barroso

Fácil e difícil

"É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo."

               Fernando Pessoa

Amor

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

            Luis de Camões

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Poetas

Ai almas dos poetas
Não as entende ninguém,
São almas de violeta
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!

         Florbela Espanca

Fortaleza-Brasil


Numa das maravilhosas praias de Fortaleza

Ford Capri

  Ford Capri 2000 GTI. Fui o feliz proprietário de um do mesmo modelo e cilindrada, só que era amarelo
torrado, com tejadilho preto, coberto a vinil. Tropicalizado. Fabricado na Alemanha.
Corri com ele, sozinho, no recém inaugurado autódromo de Benguela, Angola,(1975) tendo chegado aos 220 Km/hora, mas o "bicho" queria mais, eu é que não!!! Tinha carburador duplo e até aos 160 km/hora, bebia 11,5 lts. de gasolina por cada 100 kms. percorridos. Além dos 160 km/hora, funcionavam os dois
carburadores e, aí ... desisti de fazer contas!


O Amor

O amor, quando se revela,
 Não se sabe revelar.
 Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
 Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
 E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
 Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
 Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
 O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
 Porque lhe estou a falar.

         Fernando Pessoa

Psicografia

O poeta é um fingidor.
 Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
 A dor que deveras sente.

 E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

 E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
 Esse comboio de corda
 Que se chama o coração.

        Fernando Pessoa

Lembras-te?

Lembras-te, amor?!
Foi num aeroporto qualquer,
No meio de tanta gente,
Que me estavas a esperar
E me ensinaste a sorrir?

Lembras-te, amor?!
Foi no caminho p’ra casa,
Que os nossos lábios se uniram
Que te apertei nos meus braços
E me ensinaste a viver?

Lembras-te, amor?!
Foi na tua bela casa,
Juntinhos na mesma cama,
Que nossos corpos se uniram
E me ensinaste a amar?

Lembras-te, amor?!
Na hora da despedida,
Uma fonte construída,
De água pura vertida
E me ensinaste a chorar?

Lembras-te, amor?!
Então ... não esqueças!

                 João Semana