quarta-feira, 9 de julho de 2008

Simplesmente

Gosto de ti, simplesmente!
Gosto de ti,
Não me perguntes por quê,
Eu sei lá deste querer?

Gosto de ti quando falas,
Cheio de graça, engraçado,
Cheio de mal, malcriado

Gosto de ti quando ralhas,
Quando prometes e falhas,
Meio sem jeito, sei lá ...

Gosto de ti quando calas,
Cheio de dengo, dengoso,
Tão suave, carinhoso ...

Gosto de ti!
Não me perguntes por quê ...
Meu coração é que sente,
Gosto de ti, simplesmente!

Mila Ramos

Muito comum

Gosto das coisas comuns!
De mar, de sol, de lua,
De andar descalça pela rua,
De jogar paciência no tapete ...
De olhar a chuva que respinga na vidraça
E decifrar a figura que a gotinha traça ...

De toalha branca em mesa posta,
Quem não gosta?

De música e poesia,
De ficar sozinha,
Pensar e ter saudade,
De estar com gente
Que é gente de verdade ...
De remexer em aparelho enguiçado,
De resolver problema complicado ...

Gosto da carta que logo tem resposta,
Quem não gosta?

Gosto das coisas comuns!
Gosto de margaridas no jardim,
Gosto de ipê florindo na janela,
De um papo gostoso à luz de vela,
De ouvir rádio, ler jornal,
De banda desfilando, carnaval ...

Gosto do abraço que me enrosca,
Gosto do rosto que o meu rosto encosta.
Quem não gosta?

Gosto das coisas comuns ...
De incomum, só gosto de você!

Mila Ramos

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Noite

Noites africanas langorosas, esbatidas em luares..., perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!... ..........................................................................
Noites africanas endoidadas, onde o barulhento frenesi das batucadas, põe tremores nas folhas dos cajueiros... ..........................................................................
Noites africanas tenebrosas..., povoadas de fantasmas e de medos, povoadas das histórias de feiticeiros que as amas-secas pretas, contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram, e esqueceram as histórias...
Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas, mas tristes... como o rosto gretado, e sulcado de rugas, das velhas pretas... como o olhar cansado dos colonos, como a solidão das terras enormes mas desabitadas...
É que os meninos brancos..., esqueceram as histórias, com que as amas-secas pretas os adormeciam, nas longas noites africanas...
Os meninos-brancos... esqueceram

Alda Lara

Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhamdo algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua ...

Alda Lara

Rumo

É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz Da Terra ...
Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco, a mesma Terra nos gerou!
Vamos, companheiro ...
É tempo!
Que o meu coração se abra à mágoa das tuas mágoas e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam para estreitar com amor as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor se junte ao teu suor, quando rasgarmos os trilhos de um mundo melhor!
Vamos! que outro oceano nos inflama.. .
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...

Alda Lara - Poetisa benguelense

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Augusto Gil

BALADA DA NEVE
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Cântico Negro- José Régio

"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta: Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide!
Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!